Eu fui ver
Batman Begins no cinema e estava muito feliz. A promessa era de um filme maduro, focado no início da jornada do Batman coisa que nunca havia sido mostrada até então. Eu acompanhava os trailers, notícias e tudo mais relacionado (com o tempo parei de fazer isso por julgar que tira grande parte da graça e cria expectativas desnecessárias). Cheguei até a comprar um combo de pipoca só pra "ganhar" o pôster. Eu entrei feliz e saí decepcionado.
Batman Begins era longo, chato e tudo que foi prometido não foi cumprido. O pior foi ver o filme sendo elogiado por todo o Universo como uma obra adulta e séria que sepultava o estilo engraçadinho de Joel Schumacher, que tinha exilado Batman num limbo que nos deixou um gosto amargo na boca.
Só que
Batman Begins é fake. Cristopher Nolan botou banca de que iria fazer um Batman no "mundo real", de que ele iria ser crível e patati patatá. Tudo papo-furado. Nolan criou uma história boba, tascou um verniz de "seriedade" e todo mundo engoliu. Mas até não acredito que ele fez isso de modo maniqueísta. Ele é um diretor meia boca mesmo, exceto por
"A Origem", o único filme dele que gostei.
Batman Begins tem coisas boas, mas as piores acabam chamando mais atenção. Ninguém percebeu que colocar o Ra´s Al Ghul como o único mestre de Bruce Wayne é tão grave quanto o Coringa ser o assassino dos pais dele, como fez Tim Burton em 1989. Ninguém também percebeu que o Batman de Nolan é também um hipócrita de marca maior. Sempre com um discurso de não matar, mesmo assim não se importa em provocar a explosões e destruições que poderiam ter matado muitas pessoas ("mas ele fez por um bem maior", tá bom). Batman até nem precisa salvar Ra´s Al Ghul da morte no fim, o roteiro acaba achando corroborando para que Batman não fique com peso na consciência apesar de todo mundo morrer ao seu redor.
"Estupra mas não mata". Por isso acabo preferindo o Batman do Burton, que matava, mas pelo menos não fazia discurso da ONU a todo momento. (E na verdade, nos primeiros quadrinhos o personagem matava mesmo)
Sem contar que Nolan não tem estilo e sua obsessão por realidade acaba sendo um tiro no pé do morcego. A premissa do Batman se vestir de morcego é para aterrorizar seus inimigos, é uma espécie de estratégia de marketing, incutir o medo para vencer antes mesmo de lutar. Portanto, nada mais plausível do que as aparições do Batman beirarem a estética de um filme de horror. É aí que o Tim Burton e até o Joel Schumacher (veja só!) superam o Nolan. Veja como os diretores anteriores sabem brincar com as sombras (em especial o Burton). Veja no
Batman (1989) como Burton cria uma aura de lenda urbana para o vigilante e como suas aparições são memoráveis. Veja em
Returns de 1992 (o meu preferido) como ele adapta o Batman a seu universo particular sem desrespeitar o personagem. E veja como o trio principal (Batman, Pinguim, Mulher Gato) são bitolados quando o assunto é sexo. Até Joel Schumacher, odiado por todos, tinha mais estilo que Nolan. Para ele o Batman que valia era o psicodélico dos anos 60, aquele Batman meio "enviadado" que todos nós amamos pelo fator camp e trash. Mas veja como Schumacher brinca visualmente com a dualidade do Duas-Caras em
Forever (1995) e, mesmo tendo essa tendência Clovis Bornay, Schumacher tem estilo. E por isso eu o respeito.
Nolan não tem nada disso. Sua Gotham parece uma Nova Iorque, Chicago ou até uma Los Angeles só que sem a mesma graça. Tudo é meio normal demais, não tem nada que chame atenção. E se o seu Batman é tão real, porque diabos ele pinta os olhos com sombra? Uma coisa herdada dos outros filmes, mas que era aceita no universo deles devido ao tom fantasioso, tétrico. Pode parecer exagero chegar à essa conclusão só por causa de um olho pintado, mas com isso Nolan demonstra que ele não se manteve fiel à sua premissa, ou seja, é uma pseudo-realidade, um verniz bem do fajuto pra inglês ver.
Todo mundo erra. Burton errou, Schumacher errou, Nolan errou. Normal. Por isso mesmo
decidi dar uma chance a
The Dark Knight. O filme é melhor que seu antecessor, a trama é mais elaborada, o Coringa é um personagem MUITO bem escrito, mas Nolan comete várias cagadas. Além das mesmas de
Begins, Nolan dá início ao que eu chamo de "Síndrome do Coadjuvante" onde os personagens principais acabam se tornando coadjuvantes de seus próprios filmes (outros exemplos que lembro são
Machete e
Contra o Tempo do Jet Li). Batman vira coadjuvante em seu próprio filme e o pobre do Duas-Caras - meu vilão preferido do Batman- é tratado de modo quase criminoso, e não teve nenhum puto de nenhum site que reclamou da falta de atenção dada a ele, um personagem riquíssimo que ficou despediçado mesmo nas mãos do talentoso Aaron Eckart (que não tinha muito o que fazer com aquele texto). A morte precoce de Heath Ledger lhe rendeu um Oscar exagerado, pois como eu já disse a um amigo ator uma vez, é muito mais fácil interpretar o Coringa que é basicamente um palhaço psicótico do que o Duas-Caras, uma pessoa com dupla personalidade (que o Nolan resolveu não explorar em seu filme). Não demorou para que os fãs de Nolan elevassem Ledger ao posto de semi-deus, o melhor intérprete do Coringa. Como se o Jack Nicholson não tivesse feito isso antes e até de modo mais contido, o que era a grande sacada, pois ele era engraçado e ao mesmo tempo que era perigoso. Ele é o cara que você ao ver, iria dar risada por ser tão ridículo e cairia morto um minuto depois. O de Ledger assusta, é perigoso, e nada mais. Ok, é a abordagem do diretor, respeitemos. Pelo menos o roteiro é mais elaborado que o de
Begins e Batman é alçado ao mesmo patamar de Paul Kersey, o personagem vingador de Charles Bronson em
Desejo de Matar, todo mundo que se relaciona com ele acaba se ferrando. É, mesmo com as cagadas não foi um saldo negativo. O que me fez ir assistir
The Dark Knight Rises
Fiquem tranquilos que não revelarei
Spoilers não se preocupem.
TDKR começa 8 anos após o anterior. Batman largou o vigilantismo e vive recluso na mansão. Tudo parece estar em paz e em ordem, mas claro que quando menos se espera dá uma merda. Bane, aquele lá da saga
"Queda do Morcego", arma um daqueles planos mirabolantes (que Nolan adora) e investe contra Gotham, obrigando o morcegoso a vestir a capa novamente. Mas é tudo chato. Sim, muito chato. Digamos que é um filme sem sustância, sem tesão. É tão assexuado que a relação entre Batman e Mulher Gato não solta nenhuma faísca, nenhuma tensão sexual. É tudo asséptico. Nem uma lambidinha como a de Michelle Pfeifer em Michael Keaton. Em compensação, a Mulher Gato e Bane se assemelham bastante às suas versões em HQ. Mas é só isso, eu revi o
Batman O Retorno aqui. Tem tensão, estilo, putaria subentendida e até um sanguinho.
No Nolan falta tudo, é como se ele quisesse dar um passo maior que as pernas, por isso cria dezenas de subtramas e plot-twists. De certa forma isso faz parecer que é um filme inteligente com roteiro bem bolado. Verniz. Ele ainda cria várias "surpresinhas" e referências à HQ lá pro fim do filme, como um nome de personagem que fará as pessoas dizerem "Nossa!". Mas é só isso, quando você pára pra pensar vê que a coisa não faz sentido. E o pior de tudo é que fui me vendo descobrindo todas essas surpresas antes de serem reveladas, o que tirou a graça toda. Nolan dá uma espécie de adaptada na saga
Queda do Morcego, mas falha miseravelmente. Ele não tem sutileza, e um dos momentos memoráveis que envolve Bane e Batman é tratado de qualquer jeito, de modo que toda a força que aquele momento deveria ter simplesmente não existe, o que gera um "Ressurgimento" frouxo e sem graça. Nunca nos pegamos torcendo pelo Batman, e no fim de tudo, eu penso que seria mais proveitoso para Gotham se nunca tivesse existido um Batman já que parece que todos os problemas da cidade foram criados por ele. Eu contava os minutos pro filme acabar e cochilei diversas vezes tamanha a chatice do negócio.
Hoje em dia é fácil apontar os erros de Burton e Schumacher, mas porque não os do Nolan? Quem sabe no futuro, todo mundo que está nessa espécie de hipnose coletiva acabe acordando e veja que tudo não passa de embuste. Tem umas coisas legais? Sim, mas não foi a salvação da lavoura.
A verdade é que Nolan não se dá o luxo de ser simples. Porque ele é diretor respeitado, ele TEM que mostrar inteligência, tem que mostrar que não é somente um filme de super heróis. Tem que mostrar que isso deve ser levado a sério, mesmo sendo um homem vestido de morcego. Quando
Batman & Robin (1997) -devido à sua péssima repercussão - colocou o morcegão num exílio, eu fiquei triste. Hoje com o fim de
Rises, até fico tranquilo. Batman merece uma hibernação desse mundo real/fake de Nolan. Quem sabe isso lhe faça bem, e quem sabe algum diretor talentoso apareça e conteste toda essa bagunça, finalmente colocando o morcegão no pedestal que ele merece, assim como fez Joss Whedon nos
Vingadores. A Nolan só interessa o verniz, mas eu não me contento com isso, eu quero a polpa. Quero morder e sentir o suco da fruta, quero comer a Mulher Gato sem camisinha!
Tomara que essa hibernação faça bem ao morcego para que finalmente ele possa ressurgir, dessa vez de verdade. Até lá, descanse em paz Batman.